O Liberal, Libertário, Libertino faz uma pergunta interessante, embora uma rápida passada pelo site dele já dê a resposta: Existe preconceito contra a classe média no Brasil?
Um pouco antes ele apresentava o The Classe Média Way of Life, um blog que faz uma lista de comportamentos típicos da classe média brasileira. O blog é engraçado, mas não deixa de ser engraçado também que parta do princípio de que ser considerado de classe média é uma ofensa. Por isso mesmo, o seu autor e vários dos que postam comentários por lá se esbaldam com o material mas parecem preferir perder um dedo a admitirem a injúria ignomiosa de que também são classe média. Ao mesmo tempo, os textos se valem da imprecisão do conceito para ora satirizar a classe C, ora para se referir a atitudes típicas de novo rico ou socialite metido a besta.
Por baixo do humor bem garimpado e de algumas observações precisas aparece também aquele ranço esquerdista e antielitista que todos conhecemos, também típico de uma parcela da classe média brasileira, tão tacanho quanto tudo aquilo que o blog satiriza. É aquela necessidade de se colocar os pobres como vítimas da opressão das elites, de apontar o dedo para a classe média (alta) e os ricos como responsáveis por todas as mazelas sociais brasileiras – um quadro social do qual se beneficiariam e procurariam manter a todo custo. Ser de direita é crime, criticar o Lula e o PT é ser reacionário, ser contra as cotas raciais é desumano.
Não parece à primeira vista, mas tudo o que o autor do blog faz em alguns momentos é trocar o termo “burguesia” por “classe média”. Faça o teste e comprove. Afinal, esse papo de burguesia não cola mais, mas chame o boi pelo nome certo e num passe de mágica o mesmo discurso funciona por mais um século. Contra burguês classe média, vote 16.
Daí que a conclusão é que sim, existe preconceito contra a classe média, não resta dúvida, o que não significa que essas pessoas sejam vítimas ou que elas sejam de alguma forma prejudicadas por esse preconceito. O fato é que o conceito “classe média”, quando surge numa conversa informal (mas não num contexto de noticiário econômico, por exemplo), é na maioria das vezes pejorativo.
Apesar desse ponto de vista viciado, no entanto, o blog é legal e tem muitos achados. Resolvi então fazer um checklist, com comentários. Segundo o blog, Ser de Classe Média é:
1- Achar o Brasil um lugar horrível de se viver
Verdade. Mas qualquer pessoa sensata e honesta, em qualquer país do mundo, critica sua própria sociedade e seu próprio governo. O blog inteiro é prova disso ao criticar os brasileiros típicos.
2- Ser contra as cotas para negros nas universidades
A classe média está dividida nessa, como está em relação ao Lula. Mas claro que o autor vai ridicularizar os que são contra.
3- Gostar de festas com ambiente selecionado
Essa é boa. Não porque seja errado querer ir aos melhores bares e baladas possíveis – isso seria louvável -, mas porque os bares e baladas que usam esse slogan costumam ser lugares cretinos cheios de pessoas cretinas.
4- Nunca admitir que é rico
Essa é legal também e muito verdadeira. Mas não querer admitir que é rico deixa antever a noção de que a riqueza é uma coisa negativa – e lógico que não é. (Como sabemos, vários preconceitos marxistas se infiltraram na mentalidade pequeno-burguesa.) Bendito o dia em que todos puderem ter um nível razoável de riqueza para desfrutar da vida e ser feliz sem ter medo de ser considerado um insensível aos males do mundo.
5- Fazer curso de idiomas (e não aprender)
Genial.
6- Ler a revista Veja
Eu leio. Viva o Diogo Mainardi e o Tio Rei. (Mas, de fato, as capas sobre saúde, cirurgia plástica, dietas e animais de estimação são de doer.)
7- Fazer sua parte para combater a crise mundial
Bastante engraçado, mas equivocado. Está confundindo a Fiesp e o lobby da indústria automobilística com classe média, que não tem poder decisório sobre questões políticas e econômicas. Não, ninguém reduziu o salário da empregada…
8- Ter um pet
Procede.
9- Ser espírita
Procede. Poderia incluir também esoterismo e interesse por religiões e filosofias orientais.
10- Ter sobrenome italiano
Procede, quer dizer, achar que é foda porque tem sobrenome alemão, italiano ou polonês é coisa de jeca. Por sinal, possuir sobrenomes portugueses distintos e em abundância é muito mais legal. Queria que meu sobrenome fosse Magalhães Bulhões da Fonseca.
11- Ser contra o bolsa-família
Procede, claro. Eu sou razoavelmente médio-classista nessa.
12- Consumir pirataria
Quer dizer que se for pobre não tem problema?
13- Dizer que gosta de comida japonesa
Perfeito. Abaixo o arroz enrolado em escama de peixe.
14- Torcer pelos israelense contra os palestinos
Chaaaato! (E obviamente a Folha e a maior parte da imprensa é esquerdista e pró-Palestina.)
15- Correr
Engraçado. Mas fazer academia é pior, porque tem que pagar.
16- Comprar a prestação
Ter renda pra pagar suas contas e mesmo assim se endividar no cartão de crédito é realmente burrice. Mas quem se ferra mesmo é a classe média baixa, o mais novo e lucrativo filão das operadoras de cartão.
17- Ler a coluna social
Sim, sim… mas pode ser uma leitura bastante divertida. Também é coisa de novo-rico.
18- Fazer ioga
Modismo cretino, mistura de academia e espiritualidade oca.
19- Gostar de Cirque du Soleil
Típico middle-brow mesmo. Eu fui ver…
20- Percorrer o caminho de Santiago de Compostela
Claro. Mais um caso de espiritualidade oca.
21- Sonegar imposto
Os ricos sonegam muito mais. Transcende classes sociais no Brasil.
22- Achar que seus empregados têm que gostar de você
É… mais ou menos… É uma variação do homem cordial, não é?
23- Ser concurseiro
Na mosca.
24- Adorar amostras grátis
Pobre não gosta? E os ricos?
25- Achar que “Deus” te considera melhor que os outros
A maioria dos que pensam assim não vai admitir, mas está lá, bem enraizado.
26- Assinar TV a cabo, mas assistir Faustão
Genial!
27- Ter medo
Preconceitozinho de esquerdinha. Se eu morasse em casa, claro que ia por cercas, muros, segurança (remete ao item 33).
28- Comprar os best-sellers
É pura verdade, mas ricos também se incluem nessa.
29- Afirmar que não existe racismo no Brasil
É claro que existe. Mas somos homens cordiais.
30- Praticar o cada um por si no trânsito
Nada a ver com classe social. Remete ao item 1: em vários outros países, na média, os motoristas respeitam mais os pedestres. É cultural.
31- Pagar pau pra gringo
Verdade. Mas odiar gringo, especialmente americanos, é tão ridículo quanto…
32- Colocar a culpa no Lula
Ainda bem né, porque se depender de algumas pessoas ele já teria sido transformado em santo, com prerrogativas especiais: poder fazer qualquer tipo de cagada impunemente, falar bobagens inimagináveis sem ser criticado e encobrir as merdas cometidas pelos seus subordinados…. Ah, é, isso já aconteceu!
33 – Morar em apartamento
Post bastante sagaz, não fosse por colocar os moradores de casas como o equivalente ao bom selvagem de Rousseau. Os piás de prédio seriam debiloides sem contato com a “realidade” do mundo e sem noção do que é a “natureza”. Não podem brincar na casa da árvore, jogar bola no asfalto, criar porcos e galinhas, e ouvir o canto mágico dos passarinhos…
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Só para fazer um paralelo, os Simpsons, em seus tempos áureos, era um seriado que satirizava a classe média americana com ternura. Queria fazer rir enquanto revelava um pouco mais sobre a nossa essência e nossos preconceitos. O Homer simbolizava o ‘average Joe’ americano, e por isso mesmo ele era republicano. Hoje o humor do desenho é cada vez mais político e absurdo, aproximando-se do Família da Pesada, e tem cada vez mais os conservadores como alvos. Transformaram o Homer em um democrata que faz raciocínios políticos medianamente complexos. Tentaram fazer humor mais político e só conseguiram fazer humor menos engraçado.