A conexão entre os Glass, Caufield e Salinger

10/02/2010

Recomendo enfaticamente a leitura deste texto da Janet Malcolm na New York Review of Books (de 2001). Entraria em qualquer antologia de crítica literária, mas é particularmente relevante agora, em que tantas bobagens e clichês voltaram a ser ditos sobre o Salinger.

Interessante como ela se apóia justamente nas críticas e ataques que Salinger recebeu para encontrar um sentido maior para a vida e a obra dele. No fim, dá bastante vontade de que novas histórias sobre os Glass cheguem logo às nossas mãos. E ela nem precisou dizer que, não, Salinger não é um autor para adolescentes.


Resumo da opereta bufa

18/12/2009

Tiago Recchia, Gazeta do Povo

Adendo (18/12/09)

Sim, houve falha da diretoria do Coritiba no esquema de segurança montado para o jogo que definiu o rebaixamento. Nesse sentido, merece sanção.

Mas o clube só é culpado da incompetência em prevenir, conter e reprimir a violência. Da violência em si foi vítima.

Quando se diz que a punição ao clube tem que ser a maior possível para servir de exemplo (como justificaram os auditores do TJD), a impressão que se dá é que o clube foi também o perpretador da violência.

Como ficou claro por uma das provas usadas e aceitas no julgamento, a invasão fora planejada e o objetivo frustrado dos torcedores que invadiram o campo era agredir os próprios jogadores e a diretoria do Coritiba.

Acabaram agredindo os policiais que vieram protegê-los.

Outra questão importante que está sendo deixada de lado:

O Estatuto do Torcedor diz que o clube mandante é inteiramente responsável pela segurança dentro do estádio.

Na prática, porém, esse mesmo estatuto não delega poderes aos clubes para que possam cumprir essa função adequadamente.

Os seguranças do clube não podem portar nenhum tipo de arma nem usar de violência contra os torcedores. Ficam de mãos atadas para prevenir uma invasão de campo.

Só a polícia está aparelhada e autorizada para conter uma invasão de campo de grandes proporções.

No episódio do jogo Corinthians x River pela Libertadores de 2006, foi a polícia que preveniu uma invasão de campo, não os seguranças do clube.

Se é assim, a diretoria do Corinthians também falhou naquele evento, tanto quanto a do Coxa agora.

Nem mais, nem menos.

Mas ninguém culpou o Corinthians pelo acontecimento.

Só o estádio do Pacaembu sofreu sanções, não o clube.

É diferente do caso do Couto, porque o Corinthians continuou podendo mandar jogos em São Paulo e não precisou pagar multa.

A diferença nos dois casos é que lá a polícia conseguiu conter os vândalos. Aqui, num primeiro momento, não conseguiu.

E alguém na época achou que o clube Corinthians devia ser punido pelo que ocorreu?

Resumo da opereta: o Coritiba foi, sim, pego pra Cristo e a punição foi, sim, excessiva.

Mais adendos

- O Kfouri acha que o Coxa é culpado até por uma bomba jogada dentro de um ônibus em Colombo, na região metropolitana de Curitiba. Aí já é demagogia.

- Enquanto o clube é punido com rigor, como se fosse o próprio agente da violência, os torcedores que foram presos já começam a ser soltos. O mesmo Estatuto que coloca sobre os ombros dos clubes todo o ônus pela violência, nem sequer trata dos crimes que podem ser praticados pelos torcedores. Para os clubes, deveres. Para os torcedores, só direitos.

Aí fica difícil separar torcedor de bandido.


A aluna da Uniban e a sociedade escandalizada

10/11/2009

O caso da aluna da Uniban continua dando pano pra saia (segundo jornalista da tropa de choque do presidente, a faculdade voltou atrás na decisão de expulsá-la por pressão do Lula e do MPF) e há várias coisas que me incomodam na reação da imprensa e do público.

Em primeiro lugar, o fato de as pessoas acharem que esse tipo de coisa só podia mesmo acontecer numa faculdade de segunda linha como a Uniban. Se a Uniban é de segunda linha eu sinceramente não sei, mas nós já cansamos de ver coisas bem piores acontecendo nas nossas “melhores” universidades. Praticamente não passa um ano em que não surjam casos de alunos sendo agredidos e humilhados no trote de alguma federal por aí. A história mais trágica ocorreu justamente no curso de Medicina da USP, em que um calouro foi morto numa piscina sob o olhar complacente de dezenas de estudantes. A julgar pelo critério em voga, os alunos de Medicina da USP deveriam ser os mais inteligentes e civilizados do nosso país, mas é óbvio que isso não passa de um preconceito.

Segundo. A relação da garota com os demais alunos da faculdade tem um histórico, e ninguém está querendo tocar no assunto. A história está mal contada. Lá no começo, lembro de ter lido que o apelido dela na faculdade era “Loirão”. E houve relatos de alunos dizendo que o pessoal costumava brincar e tirar sarro dela porque ela fazia o tipo gostosona e gostava de provocar os homens com reboladas e piscadelas. “Deixou cair uma carteira, de propósito, só para ter de se agachar”, disse um deles.

Isso é verdade? Não sei. Mas me parece que faz toda a diferença. Quer dizer, não foi simplesmente um belo dia ela põe um vestido rosa – por sinal nem tão curto assim e sem decote – e a macharada vai à loucura. Até porque sabemos muito bem que mulher com microssaia em faculdade é uma coisa relativamente comum. Tudo leva a crer que a menina gostava de causar reação nos homens e cultivava a reputação com certo gosto.

Claro que isso não justifica o comportamento da turba de alunos. Por outro lado, muda uma parte da história completamente. Ou não está todo mundo escandalizado com o fato de um vestido causar tamanho escândalo?

Algo que parece corroborar essa tese é o que disse ontem o assessor jurídico da Uniban logo após a expulsão da aluna:

Contactado pela produção do Jornal das Dez, da Globo News, o assessor jurídico da Uniban, Décio Lecioni Machado, disse que o vestido curto que Geisy usava no dia da confusão não motivou a expulsão. Segundo ele, foram gestos e atitudes que a aluna já manifestava “há tempos” que provocaram o tumulto e, consequentemente, o desligamento da universidade. Apesar da afirmação, o assessor jurídico não quis entrar em detalhes sobre que tipo de gestos e atitudes seriam esses, suficientes para justificar a expulsão. (íntegra aqui)

Aí vem um terceiro ponto. Os alunos envolvidos na história estão sendo comparados a talebans e chamados de Unibambis. Como se o hábito de tachar de vagabunda mulheres vestindo roupas provocantes  ou com certas atitudes não fosse algo completamente prosaico e disseminado na nossa cultura, entre homens e mulheres de todas as classes sociais.

Uma senhorita com curvas salientes entra rebolando de saia apertadinha e fazendo tipo no escritório onde você trabalha e todo mundo para pra dar uma olhada no material. Vai haver risadinhas irônicas contidas, troca de olhares significativos, manifestações silenciosas de reprovação etc. É tão provável que seja chamada de gostosa como de vagabunda. Não estou falando hipoteticamente. Estou falando de algo que todo mundo já vivenciou e presenciou.

Há então uma disposição insistente de ignorar o quanto a maioria das pessoas, inclusive muitas das que estão indignadas, pensa exatamente igual aos alunos da Uniban – embora nunca tenha agido nem pretenda agir como eles agiram. É por isso que a atitude dos alunos é reprovável. Mas de certa forma, o que eles fizeram foi reproduzir, exagerar e escancarar uma postura absolutamente disseminada também na nossa liberalíssima sociedade, e não apenas entre radicais islâmicos retrógrados.

Estou defendendo que tudo isso está certo? Não. Mas no fundo uma das questões em jogo é sobre em que ambientes certas atitudes são ou não aceitáveis. O caso mostra o quanto a universidade passou a ser considerada um local tão desregrado como a rua, o bar, o estádio de futebol – lugares em que naturalmente também não se pode sair fazendo o que se bem enteder, mas onde muitas vezes se faz. A universidade, porém, é apenas um microcosmo que reproduz todo o caos de valores na própria base da nossa sociedade, uma sociedade esquizofrênica onde ora se pune e ora se premia os mesmíssimos tipos de comportamento, neste caso a excessiva liberalidade sexual.


Existe preconceito contra classe média?

09/11/2009

O Liberal, Libertário, Libertino faz uma pergunta interessante, embora uma rápida passada pelo site dele já dê a resposta: Existe preconceito contra a classe média no Brasil?

Um pouco antes ele apresentava o The Classe Média Way of Life, um blog que faz uma lista de comportamentos típicos da classe média brasileira. O blog é engraçado, mas não deixa de ser engraçado também que parta do princípio de que ser considerado de classe média é uma ofensa. Por isso mesmo, o seu autor e vários dos que postam comentários por lá se esbaldam com o material mas parecem preferir perder um dedo a admitirem a injúria ignomiosa de que também são classe média. Ao mesmo tempo, os textos se valem da imprecisão do conceito para ora satirizar a classe C, ora para se referir a atitudes típicas de novo rico ou socialite metido a besta.

Por baixo do humor bem garimpado e de algumas observações precisas aparece também aquele ranço esquerdista e antielitista que todos conhecemos, também típico de uma parcela da classe média brasileira, tão tacanho quanto tudo aquilo que o blog satiriza. É aquela necessidade de se colocar os pobres como vítimas da opressão das elites, de apontar o dedo para a classe média (alta) e os ricos como responsáveis por todas as mazelas sociais brasileiras – um quadro social do qual se beneficiariam e procurariam manter a todo custo. Ser de direita é crime, criticar o Lula e o PT é ser reacionário, ser contra as cotas raciais é desumano.

Não parece à primeira vista, mas tudo o que o autor do blog faz em alguns momentos é trocar o termo “burguesia” por “classe média”. Faça o teste e comprove. Afinal, esse papo de burguesia não cola mais, mas chame o boi pelo nome certo e num passe de mágica o mesmo discurso funciona por mais um século. Contra burguês classe média, vote 16.

Daí que a conclusão é que sim, existe preconceito contra a classe média, não resta dúvida, o que não significa que essas pessoas sejam vítimas ou que elas sejam de alguma forma prejudicadas por esse preconceito. O fato é que o conceito “classe média”, quando surge numa conversa informal (mas não num contexto de noticiário econômico, por exemplo), é na maioria das vezes pejorativo.

Apesar desse ponto de vista viciado, no entanto, o blog é legal e tem muitos achados. Resolvi então fazer um checklist, com comentários. Segundo o blog, Ser de Classe Média é:

1- Achar o Brasil um lugar horrível de se viver

Verdade. Mas qualquer pessoa sensata e honesta, em qualquer país do mundo, critica sua própria sociedade e seu próprio governo. O blog inteiro é prova disso ao criticar os brasileiros típicos.

2- Ser contra as cotas para negros nas universidades

A classe média está dividida nessa, como está em relação ao Lula. Mas claro que o autor vai ridicularizar os que são contra.

3- Gostar de festas com ambiente selecionado

Essa é boa. Não porque seja errado querer ir aos melhores bares e baladas possíveis – isso seria louvável -, mas porque os bares e baladas que usam esse slogan costumam ser lugares cretinos cheios de pessoas cretinas.

4- Nunca admitir que é rico

Essa é legal também e muito verdadeira. Mas não querer admitir que é rico deixa antever a noção de que a riqueza é uma coisa negativa – e lógico que não é. (Como sabemos, vários preconceitos marxistas se infiltraram na mentalidade pequeno-burguesa.) Bendito o dia em que todos puderem ter um nível razoável de riqueza para desfrutar da vida e ser feliz sem ter medo de ser considerado um insensível aos males do mundo.

5- Fazer curso de idiomas (e não aprender)

Genial.

6- Ler a revista Veja

Eu leio. Viva o Diogo Mainardi e o Tio Rei. (Mas, de fato, as capas sobre saúde, cirurgia plástica, dietas e animais de estimação são de doer.)

7- Fazer sua parte para combater a crise mundial

Bastante engraçado, mas equivocado. Está confundindo a Fiesp e o lobby da indústria automobilística com classe média, que não tem poder decisório sobre questões políticas e econômicas. Não, ninguém reduziu o salário da empregada…

8- Ter um pet

Procede.

9- Ser espírita

Procede. Poderia incluir também esoterismo e interesse por religiões e filosofias orientais.

10- Ter sobrenome italiano

Procede, quer dizer, achar que é foda porque tem sobrenome alemão, italiano ou polonês é coisa de jeca. Por sinal, possuir sobrenomes portugueses distintos e em abundância é muito mais legal. Queria que meu sobrenome fosse Magalhães Bulhões da Fonseca.

11- Ser contra o bolsa-família

Procede, claro. Eu sou razoavelmente médio-classista nessa.

12- Consumir pirataria

Quer dizer que se for pobre não tem problema?

13- Dizer que gosta de comida japonesa

Perfeito. Abaixo o arroz enrolado em escama de peixe.

14- Torcer pelos israelense contra os palestinos

Chaaaato! (E obviamente a Folha e a maior parte da imprensa é esquerdista e pró-Palestina.)

15- Correr

Engraçado. Mas fazer academia é pior, porque tem que pagar.

16- Comprar a prestação

Ter renda pra pagar suas contas e mesmo assim se endividar no cartão de crédito é realmente burrice. Mas quem se ferra mesmo é a classe média baixa, o mais novo e lucrativo filão das operadoras de cartão.

17- Ler a coluna social

Sim, sim… mas pode ser uma leitura bastante divertida. Também é coisa de novo-rico.

18- Fazer ioga

Modismo cretino, mistura de academia e espiritualidade oca.

19- Gostar de Cirque du Soleil

Típico middle-brow mesmo. Eu fui ver…

20- Percorrer o caminho de Santiago de Compostela

Claro. Mais um caso de espiritualidade oca.

21- Sonegar imposto

Os ricos sonegam muito mais. Transcende classes sociais no Brasil.

22- Achar que seus empregados têm que gostar de você

É… mais ou menos… É uma variação do homem cordial, não é?

23- Ser concurseiro

Na mosca.

24- Adorar amostras grátis

Pobre não gosta? E os ricos?

25- Achar que “Deus” te considera melhor que os outros

A maioria dos que pensam assim não vai admitir, mas está lá, bem enraizado.

26- Assinar TV a cabo, mas assistir Faustão

Genial!

27- Ter medo

Preconceitozinho de esquerdinha. Se eu morasse em casa, claro que ia por cercas, muros, segurança (remete ao item 33).

28- Comprar os best-sellers

É pura verdade, mas ricos também se incluem nessa.

29- Afirmar que não existe racismo no Brasil

É claro que existe. Mas somos homens cordiais.

30- Praticar o cada um por si no trânsito

Nada a ver com classe social. Remete ao item 1: em vários outros países, na média, os motoristas respeitam mais os pedestres. É cultural.

31- Pagar pau pra gringo

Verdade. Mas odiar gringo, especialmente americanos, é tão ridículo quanto…

32- Colocar a culpa no Lula

Ainda bem né, porque se depender de algumas pessoas ele já teria sido transformado em santo, com prerrogativas especiais: poder fazer qualquer tipo de cagada impunemente, falar bobagens inimagináveis sem ser criticado e encobrir as merdas cometidas pelos seus subordinados…. Ah, é, isso já aconteceu!

33 – Morar em apartamento

Post bastante sagaz, não fosse por colocar os moradores de casas como o equivalente ao bom selvagem de Rousseau. Os piás de prédio seriam debiloides sem contato com a “realidade” do mundo e sem noção do que é a “natureza”. Não podem brincar na casa da árvore, jogar bola no asfalto, criar porcos e galinhas,  e ouvir o canto mágico dos passarinhos…

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Só para fazer um paralelo, os Simpsons, em seus tempos áureos, era um seriado que satirizava a classe média americana com ternura. Queria fazer rir enquanto revelava um pouco mais sobre a nossa essência e nossos preconceitos. O Homer simbolizava o ‘average Joe’ americano, e por isso mesmo ele era republicano. Hoje o humor do desenho é cada vez mais político e absurdo, aproximando-se do Família da Pesada, e tem cada vez mais os conservadores como alvos. Transformaram o Homer em um democrata que faz raciocínios políticos medianamente complexos. Tentaram fazer humor mais político e só conseguiram fazer humor menos engraçado.


Vício químico x vício psicológico

30/10/2009

Que existe vício químico parece indiscutível. Mas até que ponto um viciado em qualquer substância química consegue exercer seu livre-arbítrio para diminuir ou livrar-se do vício? Existem componentes psicológicos associados? Esta pesquisa, publicada originalmente em 1978 e rejeitada pelas maiores publicações científicas da época, fez uma nova abordagem da questão – e chegou a resultados interessantes.