O caso da aluna da Uniban continua dando pano pra saia (segundo jornalista da tropa de choque do presidente, a faculdade voltou atrás na decisão de expulsá-la por pressão do Lula e do MPF) e há várias coisas que me incomodam na reação da imprensa e do público.
Em primeiro lugar, o fato de as pessoas acharem que esse tipo de coisa só podia mesmo acontecer numa faculdade de segunda linha como a Uniban. Se a Uniban é de segunda linha eu sinceramente não sei, mas nós já cansamos de ver coisas bem piores acontecendo nas nossas “melhores” universidades. Praticamente não passa um ano em que não surjam casos de alunos sendo agredidos e humilhados no trote de alguma federal por aí. A história mais trágica ocorreu justamente no curso de Medicina da USP, em que um calouro foi morto numa piscina sob o olhar complacente de dezenas de estudantes. A julgar pelo critério em voga, os alunos de Medicina da USP deveriam ser os mais inteligentes e civilizados do nosso país, mas é óbvio que isso não passa de um preconceito.
Segundo. A relação da garota com os demais alunos da faculdade tem um histórico, e ninguém está querendo tocar no assunto. A história está mal contada. Lá no começo, lembro de ter lido que o apelido dela na faculdade era “Loirão”. E houve relatos de alunos dizendo que o pessoal costumava brincar e tirar sarro dela porque ela fazia o tipo gostosona e gostava de provocar os homens com reboladas e piscadelas. “Deixou cair uma carteira, de propósito, só para ter de se agachar”, disse um deles.
Isso é verdade? Não sei. Mas me parece que faz toda a diferença. Quer dizer, não foi simplesmente um belo dia ela põe um vestido rosa – por sinal nem tão curto assim e sem decote – e a macharada vai à loucura. Até porque sabemos muito bem que mulher com microssaia em faculdade é uma coisa relativamente comum. Tudo leva a crer que a menina gostava de causar reação nos homens e cultivava a reputação com certo gosto.
Claro que isso não justifica o comportamento da turba de alunos. Por outro lado, muda uma parte da história completamente. Ou não está todo mundo escandalizado com o fato de um vestido causar tamanho escândalo?
Algo que parece corroborar essa tese é o que disse ontem o assessor jurídico da Uniban logo após a expulsão da aluna:
Contactado pela produção do Jornal das Dez, da Globo News, o assessor jurídico da Uniban, Décio Lecioni Machado, disse que o vestido curto que Geisy usava no dia da confusão não motivou a expulsão. Segundo ele, foram gestos e atitudes que a aluna já manifestava “há tempos” que provocaram o tumulto e, consequentemente, o desligamento da universidade. Apesar da afirmação, o assessor jurídico não quis entrar em detalhes sobre que tipo de gestos e atitudes seriam esses, suficientes para justificar a expulsão. (íntegra aqui)
Aí vem um terceiro ponto. Os alunos envolvidos na história estão sendo comparados a talebans e chamados de Unibambis. Como se o hábito de tachar de vagabunda mulheres vestindo roupas provocantes ou com certas atitudes não fosse algo completamente prosaico e disseminado na nossa cultura, entre homens e mulheres de todas as classes sociais.
Uma senhorita com curvas salientes entra rebolando de saia apertadinha e fazendo tipo no escritório onde você trabalha e todo mundo para pra dar uma olhada no material. Vai haver risadinhas irônicas contidas, troca de olhares significativos, manifestações silenciosas de reprovação etc. É tão provável que seja chamada de gostosa como de vagabunda. Não estou falando hipoteticamente. Estou falando de algo que todo mundo já vivenciou e presenciou.
Há então uma disposição insistente de ignorar o quanto a maioria das pessoas, inclusive muitas das que estão indignadas, pensa exatamente igual aos alunos da Uniban – embora nunca tenha agido nem pretenda agir como eles agiram. É por isso que a atitude dos alunos é reprovável. Mas de certa forma, o que eles fizeram foi reproduzir, exagerar e escancarar uma postura absolutamente disseminada também na nossa liberalíssima sociedade, e não apenas entre radicais islâmicos retrógrados.
Estou defendendo que tudo isso está certo? Não. Mas no fundo uma das questões em jogo é sobre em que ambientes certas atitudes são ou não aceitáveis. O caso mostra o quanto a universidade passou a ser considerada um local tão desregrado como a rua, o bar, o estádio de futebol – lugares em que naturalmente também não se pode sair fazendo o que se bem enteder, mas onde muitas vezes se faz. A universidade, porém, é apenas um microcosmo que reproduz todo o caos de valores na própria base da nossa sociedade, uma sociedade esquizofrênica onde ora se pune e ora se premia os mesmíssimos tipos de comportamento, neste caso a excessiva liberalidade sexual.
Escrito por normanchap
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