Pacifistas e jihadistas de poltrona

31/03/2009

A Newsweek da semana passada traz uma matéria excelente, que deveria ser lida por todos os que ficam criticando as campanhas militares americanas no Iraque e no Afeganistão, sem se preocupar em entender um pouco melhor tudo que está em jogo nesses conflitos. Em defesa da paz e da “autodeterminação” dos povos e acostumadas com a liberdade que desfrutam em suas casas, muitos pacifistas nem se dão conta do grau de opressão que os extremistas e radicais desses países exercem sobre as pessoas comuns, e dão de barato que a vontade de seus ditadorezinhos sádicos  corresponde plenamente aos anseios e interesses dessas populações, como se elas pudessem expressá-los.

Escrita pelo afegão Sami Yousafzai, no Paquistão com a família desde 1979, onde sofreu uma tentativa de assassinato em novembro e fugiu para Londres, a matéria fala da fúria jihadista de jovens afegãos vivendo na capital inglesa. Confortavelmente instalados em uma sociedade moderna, aberta e desenvolvida, esses filhos de refugiados políticos se voltam contra o país que acolheu e concedeu refúgio a suas famílias, colaborando ideologicamente com os talebans obscurantistas que foram a causa inicial do problema, há algumas décadas, aparentemente não vendo nada de errado com a brutalidade do regime do líder Mulá Mohammed Omar, que também proibiu a música e a educação feminina no país.

No bairro de imigrantes asiáticos em que se instalou, Yousafzai encontrou um sujeito conhecido como Talib Jan, que, como explica,  é um apelido amigável dado a simpatizantes do taleban. Yousafzai assustou-se quando viu Jan pela primeira vez, porque ele se parecia muito com um dos homens encapuzados que tentaram matá-lo na fronteira do Paquistão com o Afeganistão. Tem ombros largos, barba comprida, está sempre vestido com o shalwar kameez afegão (túnica e calças largas típicas da região) e usa o turbante frouxamente enrolado. Yousafzai viu ele tantas vezes na rua que achou que estava sendo perseguido, mas depois descobriu que o sujeito era bastante popular entre os moradores e até considerado simpático.

A despeito das aparências, Jan era mesmo extrovertido e simpático no trato com as pessoas. Conversando com ele, Yousafzai descobriu que Jan ganha a vida negociando carros usados e que tinha vindo para Londres graças aos esforços de sua família, que haviam contratado um traficante de pessoas quando ele tinha 14 anos, depois de freqüentar uma madrassa no Paquistão por algum tempo. Hoje, aos 23, Jan é um pesadelo para seus conterrâneos integrados. Está sempre nas ruas  policiando os costumes dos imigrantes afegãos ou pregando contra os britânicos e americanos sujos que vêm oprimindo sua terra natal – que parece acreditar ser uma espécie de utopia islâmica concretizada. Yousafzai acredita que ele não tem vínculos reais com o Taleban, nem é pago por ninguém para fazer o que faz. Chamou-o de “armchair jihadist”, um jihadista de poltrona. É figura carimbada nas mesquitas londrinas, onde distribui folhetos religiosos depois dos cultos, e conseguiu destruir o namoro de um colega afegão com uma garota londrina, ao contar para ela que o namorado não era realmente turco. Não tão simpático assim, ameaçou o rapaz, garçom em um café e sempre bem barbeado e com brincos nas duas orelhas, de contar para a família dele no Afeganistão que o filho estava tendo um relacionamento proibido.

Jan costuma passar o tempo livre em frente a uma loja de celulares, onde vários adolescentes barbudos se reúnem para trocar vídeos pelo bluetooth – geralmente “espiões” anti-Taleban sendo decapitados ou ciladas contra as forças americanas. Segundo o dono da loja, um afegão de 35 anos que distribui os vídeos: “Se nossos irmãos talebans conseguem resistir aos bombardeamentos com B-52 e à moderna tecnologia de guerra americana, seria covardia minha ter medo de assistir e compartilhar os seus feitos heroicos”. Esse sujeito, que freqüentou a escola e havia sido banqueiro em Peshawar, conta orgulhosamente que, nos anos 90, ele e seus amigos saíam para matar prostitutas, no que chamavam de “limpeza moral”. Ele ameaçou o repórter a não falar mal do Taleban mesmo em Londres, pois pessoas queridas  poderiam se machucar em casa.

A matéria conta ainda que os imigrantes mais velhos rejeitam os extremistas e se alarmam com o fascínio dos mais jovens. Outras histórias compartilhadas pelo repórter: um imigrante desempregado em Birmingham que está pensando em voltar para Kandahar para lutar a guerra santa (“Se eu for morto, pelo menos poderei ver o paraíso”); e o recém-chegado Alokozai, que era intérprete e auxiliava tropas britânicas no Afeganistão. Ganhava 1.600 libras por mês, mas começou a ser ameaçado de morte em cartas anônimas, resolvendo fugir para a Inglaterra. Em solo inglês, recebeu um telefonema às 3 da manhã, dizendo: “Os Anjos da Morte vão agarrar sua garganta. Lembre-se que temos irmãos islâmicos no Reino Unido. Sua família também não terá paz em Kandahar.”

A matéria original pode ser lida na íntegra aqui.


Racismo às avessas

26/03/2009

“A crise foi causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis, que antes pareciam saber de tudo, e, agora, demonstram não saber de nada.”  Lula

O Ralph Nader foi execrado em cadeia nacional nos Estados Unidos por muito menos (afinal, ele estava ironizando o fato da eleição americana ter se tornado um debate racial e chamando a atenção para questões que considerava mais importantes*).

Mas, pegando carona na metáfora de Nader, será que Lula também acha que, vamos ver, um Colin Powell é um “pai Tomás” quando se trata de guerra no Iraque?

Dava pra legitimamente apontar o dedo para Wall Street sem precisar descer tanto.

(* E que ironia, a Fox News posando de vestal.)

===== Atualização – 30/03/09 =====

Há muitos banqueiros negros no mundo, assim como há quatro indianos e um latino (mais do que gente branca de olhos azuis) na lista dos 10 mais ricos da Forbes. Mas eis um banqueiro negro que Lula devia conhecer em especial:

- Stan O’Neal: ex-CEO do Merrill Lynch, demitido em 2007 após o anúncio de um prejuízo trimestral de 2,3 bilhões de dólares e da perda de US$ 8,4 bilhões em investimentos relacionados com hipoteca e crédito imobiliário. Foi acusado de extorquir funcionários de alto escalão e forçar a compra de ações e títulos de alto risco – o que a princípio teria gerado grandes lucros, mas levou aos péssimos resultados no período mencionado -, além de arquitetar uma fusão fraudulenta com o banco Wachovia, que lhe renderia US$ 250 milhões. O Merrill Lynch foi um dos protagonistas do ápice da crise em setembro passado.

Não dá pra encarar a coisa apenas como uma “metáfora” do Lula, quando o próprio Lula e os petistas estão sempre apelando para a “elite branca” como culpada das mazelas brasileiras, geralmente para tirar a atenção sobre suas alianças espúrias no Congresso ou um novo escândalo envolvendo o partido. É o mesmo discurso diversionista aplicado em escala global pra fazer demagogia com a massa de eleitores desinformados do país, como também fazem com o Bolsa Família.

Lembre-se ainda que a ganância e a cobiça que levaram à crise atual teve na outra ponta da equação o próprio povo (os pobres e os desamparados coitadinhos de sempre), centenas de milhares de pessoas de renda baixa ou média que se endividaram com mansões luxuosas de meio milhão de dólares pra cima (algo que nunca poderiam pagar) e aplicando golpes de re-hipoteca, levando a um calote em massa no sistema financeiro e dando início à bola de neve.

(* Vale ler o que disse o Sardenberg sobre a polêmica.)


What are you doing, you twit?

23/03/2009

Sexta-feira, no bar, alguém perguntou, num misto de curiosidade sincera e deboche, de que se trata, afinal, esse Twitter de que tanto se fala. O que há de novo sob o céu?

A uma apresentação tosca dos demais, incluindo eu, seguiram-se algumas reações um pouco incendiárias quanto ao hype ridículo que se formou sobre a novidade. Entusiastas do Twitter e de qualquer nova ferramenta da internet tendem a superestimar a utilidade e o potencial revolucionário dessas invenções e criar modismos desproporcionados.

Concordo. Mas também não quero despachar a coisa como pura frivolidade.

Eis uma explicação simples da Wikipedia sobre o que é o Twitter:

Twitter é uma rede social e servidor para microblogging que permite que os usuários enviem atualizações pessoais contendo apenas texto em menos de 140 caracteres via SMS, mensageiro instantâneo, e-mail, site oficial ou programa especializado. Foi fundado em março de 2006 pela Obvious Corp. em São Francisco.

As atualizações são exibidas no perfil do usuário em tempo real e também enviadas a outros usuários que tenham assinado para recebê-las. Usuários podem receber atualizações de um perfil através do site oficial ou por RSS, SMS ou programa especializado.

Devido ao sucesso do Twitter, um grande número de sites parecidos foram lançados ao redor do mundo. Alguns oferecem o serviço para um país específico, outros unem outras funções, como compartilhamento de arquivos que era oferecido pelo Pownce.

Acho que foi mais ou menos isso que dissemos na sexta, mas o que moveu a discussão era a serventia desse negócio.

O site oficial fala em “hiperconectividade” com amigos e colegas de trabalho, permitindo que eles sempre saibam “o que você está fazendo” (esta é a pergunta onipresente sobre a caixa de postagem), e arrisca apresentar a ferramenta como um “antídoto para a sobrecarga de informações”.

Serviria, por exemplo, para avisar o pessoal do trabalho que você está preso no trânsito e vai se atrasar para uma reunião ou contar novidades para os amigos, coisas como “fui contratado na Esso”, “comi a vagabunda”  ou “fodeu, ela tá grávida”.

Como isso pode ser considerado um antídoto para o excesso de informação, e não o oposto, não me parece claro, e a reação ao twitter  já tem até um slogan (meio previsível em inglês): “Twitter is for twits“.

Não vou entrar muito na polêmica, mas observo que até mesmo o nome Twitter já admite abertamente seu potencial para a irrelevância de conteúdo. Definições do meu Longman de cabeceira:

twitter verb

1. if a bird twitters, it makes a lot of short high sounds. 

2. to talk about unimportant or silly things, usually very quickly and nervously in a high voice.

Nenhuma delas soa muito laudatória. O pio dos passarinhos ou uma pessoa falando ansiosamente sobre bobagens. É mesmo o pio nervoso dos pardaizinhos no fim da tarde, que às vezes enche mas pode ser facilmente ignorado.

De qualquer forma, o próprio fato de muita gente estar aderindo ao Twitter (que está completando três anos de existência) é já um sinal de que o uso e a percepção da internet está mudando (ver Web 2.0). Você pode achar o negócio meio bobo, e talvez o twitter especificamente não passe de um modismo, mas a reação me lembra as polêmicas sobre os blogs, há alguns anos atrás, que opunha xiitas reacionários e gente exageradamente empolgada.

Perdi a conta das bobagens que ouvi sobre os blogs: jornalistas perguntando a escritores blogueiros se os blogs eram uma nova fronteira ou mesmo “o começo de uma nova era” para a literatura; intelectuais prevendo que os blogs iam substituir o jornal impresso; gente que achava que blogs eram necessariamente coisa para adolescentes desocupados (eu não sou mais adolescente, viu?); uma nova forma de expressão; o fim da censura, o fim das fronteiras nacionais, a ditadura da mediocridade e outros blábláblá nhenhenhém e chororô intermináveis. O horror!

Mas o blog é só um programa para facilitar a publicação de conteúdo na internet. E felizmente há muitos bons blogs por aí que merecem ser lidos, simplesmente porque são escritos por pessoas das mais diferentes áreas e perfis que têm coisas relevantes e/ou interessantes para dizer. Se elas dizem isso em blogs, podcast, rádios piratas ou pelo twitter não faz muita diferença em termos de conteúdo.

Então, os blogs são apenas isso, blogs. Nem de longe eles ameaçam a existência da imprensa; nenhum poeta conseguiu fazer poesias mais inspiradas; nenhum escritor revolucionou a história da literatura; ninguém ficou rico ou vive de blog; e, parafraseando Gore Vidal, blogs não costroem estradas.

Mas sim, os blogs têm sido ótimos. Em vez de ameaçar, eles complementam a imprensa de várias formas. Há os blogs dos jornalistas famosos e dos não tanto, há blogs nas versões online dos jornais,  há pessoas vivendo em zonas de guerra ou ditaduras relatando o que está acontecendo, que acabam se tornando fontes importantes utilizadas na própria imprensa. Há também os blogs de todas as outras áreas, de humor, cinema, ciência, religião, tecnologia, política.  E o mar de blogs desconhecidos e anônimos à margem do mainstream – olá, tudo bem? – que, garanto, somos inofensivos.

Excesso de informação é problema de intelectual. As pessoas selecionam o que gostam e o que interessa, ignorando o restante. Escolhem mal, é verdade, mas quando reclamam é de falta de opção, não de excesso.

O grande erro, imagino, é acreditar que a revolução da internet seja uma coisa que vai alterar radicalmente não só o mundo e a vida das pessoas, como a própria essência do mundo e das pessoas. Esqueçam as ficções científicas. O novo está aí e já o estamos vivendo, mas a vida continua nas mesmas bases. Vem o hype da tv digital, vai o hype do iPhone, chega o hype do twitter. Em verdade vos digo que outros milhares passarão. Mas, no fim, bem- aventurados os que tomam a cervejinha na sexta-feira. E não se preocupam em avisar isso pelo twitter.

Mais sobre o Twitter:

1- How to lose your job in 140 characters or less. História real e cômica. Vale a pena ler.

2- Twitter é mais usado por adultos, diz estudo. Dados sobre quem realmente usa. Meio superficial, mas dá uma ideia mais concreta.

3- Twittering tips for beginners. Levanta as contradições da ferramenta e alguns exemplos de uso eficiente.