
A Newsweek da semana passada traz uma matéria excelente, que deveria ser lida por todos os que ficam criticando as campanhas militares americanas no Iraque e no Afeganistão, sem se preocupar em entender um pouco melhor tudo que está em jogo nesses conflitos. Em defesa da paz e da “autodeterminação” dos povos e acostumadas com a liberdade que desfrutam em suas casas, muitos pacifistas nem se dão conta do grau de opressão que os extremistas e radicais desses países exercem sobre as pessoas comuns, e dão de barato que a vontade de seus ditadorezinhos sádicos corresponde plenamente aos anseios e interesses dessas populações, como se elas pudessem expressá-los.
Escrita pelo afegão Sami Yousafzai, no Paquistão com a família desde 1979, onde sofreu uma tentativa de assassinato em novembro e fugiu para Londres, a matéria fala da fúria jihadista de jovens afegãos vivendo na capital inglesa. Confortavelmente instalados em uma sociedade moderna, aberta e desenvolvida, esses filhos de refugiados políticos se voltam contra o país que acolheu e concedeu refúgio a suas famílias, colaborando ideologicamente com os talebans obscurantistas que foram a causa inicial do problema, há algumas décadas, aparentemente não vendo nada de errado com a brutalidade do regime do líder Mulá Mohammed Omar, que também proibiu a música e a educação feminina no país.
No bairro de imigrantes asiáticos em que se instalou, Yousafzai encontrou um sujeito conhecido como Talib Jan, que, como explica, é um apelido amigável dado a simpatizantes do taleban. Yousafzai assustou-se quando viu Jan pela primeira vez, porque ele se parecia muito com um dos homens encapuzados que tentaram matá-lo na fronteira do Paquistão com o Afeganistão. Tem ombros largos, barba comprida, está sempre vestido com o shalwar kameez afegão (túnica e calças largas típicas da região) e usa o turbante frouxamente enrolado. Yousafzai viu ele tantas vezes na rua que achou que estava sendo perseguido, mas depois descobriu que o sujeito era bastante popular entre os moradores e até considerado simpático.
A despeito das aparências, Jan era mesmo extrovertido e simpático no trato com as pessoas. Conversando com ele, Yousafzai descobriu que Jan ganha a vida negociando carros usados e que tinha vindo para Londres graças aos esforços de sua família, que haviam contratado um traficante de pessoas quando ele tinha 14 anos, depois de freqüentar uma madrassa no Paquistão por algum tempo. Hoje, aos 23, Jan é um pesadelo para seus conterrâneos integrados. Está sempre nas ruas policiando os costumes dos imigrantes afegãos ou pregando contra os britânicos e americanos sujos que vêm oprimindo sua terra natal – que parece acreditar ser uma espécie de utopia islâmica concretizada. Yousafzai acredita que ele não tem vínculos reais com o Taleban, nem é pago por ninguém para fazer o que faz. Chamou-o de “armchair jihadist”, um jihadista de poltrona. É figura carimbada nas mesquitas londrinas, onde distribui folhetos religiosos depois dos cultos, e conseguiu destruir o namoro de um colega afegão com uma garota londrina, ao contar para ela que o namorado não era realmente turco. Não tão simpático assim, ameaçou o rapaz, garçom em um café e sempre bem barbeado e com brincos nas duas orelhas, de contar para a família dele no Afeganistão que o filho estava tendo um relacionamento proibido.
Jan costuma passar o tempo livre em frente a uma loja de celulares, onde vários adolescentes barbudos se reúnem para trocar vídeos pelo bluetooth – geralmente “espiões” anti-Taleban sendo decapitados ou ciladas contra as forças americanas. Segundo o dono da loja, um afegão de 35 anos que distribui os vídeos: “Se nossos irmãos talebans conseguem resistir aos bombardeamentos com B-52 e à moderna tecnologia de guerra americana, seria covardia minha ter medo de assistir e compartilhar os seus feitos heroicos”. Esse sujeito, que freqüentou a escola e havia sido banqueiro em Peshawar, conta orgulhosamente que, nos anos 90, ele e seus amigos saíam para matar prostitutas, no que chamavam de “limpeza moral”. Ele ameaçou o repórter a não falar mal do Taleban mesmo em Londres, pois pessoas queridas poderiam se machucar em casa.
A matéria conta ainda que os imigrantes mais velhos rejeitam os extremistas e se alarmam com o fascínio dos mais jovens. Outras histórias compartilhadas pelo repórter: um imigrante desempregado em Birmingham que está pensando em voltar para Kandahar para lutar a guerra santa (“Se eu for morto, pelo menos poderei ver o paraíso”); e o recém-chegado Alokozai, que era intérprete e auxiliava tropas britânicas no Afeganistão. Ganhava 1.600 libras por mês, mas começou a ser ameaçado de morte em cartas anônimas, resolvendo fugir para a Inglaterra. Em solo inglês, recebeu um telefonema às 3 da manhã, dizendo: “Os Anjos da Morte vão agarrar sua garganta. Lembre-se que temos irmãos islâmicos no Reino Unido. Sua família também não terá paz em Kandahar.”
A matéria original pode ser lida na íntegra aqui.
Escrito por normanchap
Escrito por normanchap
Escrito por normanchap