Glorious Basterd

(contém spoilers)

Fui ver Bastardos Inglórios e achei divertidíssimo. Li que espinafraram o Brad Pitt pelo sotaque forçado de interiorano e que teria sido a pior atuação da carreira dele. Ele é ridículo mesmo, mas tenho a impressão que é proposital. O  personagem é pura paródia, como todo o filme. É para ser pastiche e é para desmoralizar a ideia de que a cavalaria americana sempre entra em cena pra salvar o mundo. O nome do tenente, Aldo Raine, dá a pista – misto de Aldo Ray e John Wayne (não que eu tenha percebido, mas li por aí). Tanto que o personagem praticamente some da metade em diante, depois de criar-se toda uma expectativa de que ele e seu batalhão de soldados judeus vai derrubar sozinho a cúpula do Terceiro Reich. Quem faz isso é a judia Sashona, a verdadeira protagonista e heroína do filme. O tenente, no capítulo final e decisivo, se mostra um verdadeiro banana na hora de executar o plano undercover com seu sotaque italiano ridículo. Isso em contraste com um outro soldado judeu que se faz passar por oficial alemão com muito mais habilidade mas acaba traído por detalhes. O contraste é sempre no sentido de colocar os americanos como verdadeiros jecas perto dos europeus, e Brad Pitt, com tudo o que representa, está ali para representar exatamente isso. Por sinal, a piada recorrente no filme é sobre alemães e franceses começarem a falar inglês depois de duas frases básicas ditas em alemão ou francês, como um indiano na novela da Globo falando português depois de dizer Are baba.

Fala-se muito nas referências, na trilha e nos diálogos do Tarantino, e tudo isso é verdade, mas uma das coisas mais interessantes nos seus filmes é que a maioria dos seus personagens costuma ser muito inteligente. É mais uma quebra de convenção que acaba revelando a fragilidade da ideia dominante de realismo. E é o que permite os diálogos lentos, tensos, elaborados e cheios de pausas, como em um filme europeu, que têm como contraponto as cenas de ação e violência. Enfim, tem todas as mil referências habituais no filme, mas uma que me chamou atenção e de que não pude encontrar confirmação pela internet é que o coronel nazista Hans Landa é na verdade aquele coronel cínico do Amém (Costa-Gavras), que no final se dá bem e escapa sem ser julgado. E como em Amém, é o melhor personagem do filme, com as melhores falas e a melhor atuação. Um glorious basterd.

4 Respostas para “Glorious Basterd”

  1. Viviane Disse:

    Não é um soldado judeu que se passa por alemão , e sim um soldado inglês.

  2. Galeb Disse:

    Fui ver o filme ontem, às 18h, no Crystal. Não me acostumo com estes filmes com diálogos longos, lentos, tensos, detalhistas, com pausassss que não acabam nunca. Parece amor e ódio. São 10 minutos sussurrando pra mim mesmo – “CHAAATO”, mas os últimos 2 minutos me convenço que valeu a espera.

    Dividir o filme em capítulos, utilizar setas para indicar personagens e caracteres gigantes no estilo Jaspion é repetitivo e parece forçar uma marca registrada de Tarantino. A primeira vez até que é legal, mas depois enche o saco.

    O Brad Pitt é engraçado por dois motivos: o sotaque caipira do Tennessee e a única expressão facial, ainda mais forçada que o sotaque. Ah, a tentativa de falar italiano com o caipirês ianque é demais.

    Sashona: linda.

    • normanchap Disse:

      Ah, mas os diálogos compridos desse filme não são metidos a papo-cabeça. São tensos, a coisa pode explodir a qualquer momento. Quase torturam a plateia, mas não de chatice, de nervosismo. As conversas do Jew-hunter na casa do agricultor e com a Sashona depois do Goebels e a conversa na taverna já valem o filme. Mas concordo com o restante.

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